domingo, 18 de outubro de 2009

Deixa ela entrar


Deixa ela entrar, do diretor sueco Tomas Alfredson, é um excelente exercício de renovação de um gênero absolutamente desgastado. Há uma enxurrada de filmes de vampiros sendo exibidos e produzidos. O tema, que vai muito além do cinema, se tornou uma espécie de praga, é quase impossível andar de metrô sem dar de cara com um leitor da série Crepúsculo e suas variantes. Na televisão, seguindo a onda, também existem vários seriados recentes que estão aproveitando a temática sobrenatural. Esta moda, na verdade, reatualiza um gênero que sempre se fez presente na produção cultural de massa. Basta lembrar o sucesso dos filmes da Universal no início do século passado, potencializado pela figura poderosa de Bela Lugosi, ou mesmo a importância do Nosferatu do expressionismo alemão. Algumas décadas depois, foi a vez do estúdio Hammer e sua variada produção de filmes vampirescos, também ancoradas em duas figuras muito impactantes: Peter Cushing (o eterno caçador) e Christopher Lee (o diabólico vampiro). Estas obras clássicas foram reapropriadas inúmeras vezes, fornecendo as balizas de fórmulas fílmicas, ocasionalmente subvertidas, extrapoladas, mas muitas vezes copiadas. O problema, porém, é que, como toda fórmula, ela vai se tornou cada vez mais esvaziada de sentido e valor estético. Dessa maneira, pode-se dizer sem nenhum erro que os filmes mais contemporâneos de vampiros consistem em nada mais do que uma série de repetições exaustivas de modelos que foram exageradamente experimentados, tornando-se obras monótonas, quando não simplesmente constrangedoras. Esta vacuidade, não raramente, resulta em filmes nos quais a violência exagerada, verdadeiras pornografias de sangue, se tornam um fim em si mesmo. O filme sueco, felizmente, mostra como é possível retrabalhar as fórmulas do gênero de maneira inventiva e muito rica. O filme conta a história de Oskar, um garoto isolado e que sofre constantes ameaças e violências de seus colegas de escola. No seu sofrimento solitário, o garoto alimenta um profundo desejo de vingança, materializado na constante simulação de um ato de violência contra seus agressores. É este ato que lhe aproximará de Eli. A garota que acabara de chegar à vizinhança o observa de longe, enquanto ele pratica seu desejo secreto, apunhalando uma árvore. Ela é capaz de compreender a dimensão destrutiva do desejo de Oskar e por isso se aproxima do pobre rapaz. O filme trata desse relacionamento, que a primeira vista seria apenas o encontro de dois personagens desajustados e inadaptados. Porém, logo se revela que Eli não é uma garota de fato. A pequena menina é uma vampira que precisa matar suas vítimas para sobreviver. É esta sua natureza destrutiva, repleta de uma dolorosa tragédia, que a aproxima do rapaz. Ela enxerga nele alguém capaz de compreendê-la, capaz de entender a sua condição violenta. O filme se estrutura em torno do aprendizado, por parte de Oskar, do caráter inerente dessa dimensão do desejo, da impossibilidade de expiar completamente esta potência. Dessa forma, Eli não é retratada como uma entidade maligna, ela nunca aparece como uma espécie de vilã, mas como o puro retrato da dimensão desejante da existência humana. Isto provoca um processo de desmoralização da imagem vampírica, o que permite a construção de imagens que subvertem, de maneira muito profunda, as fórmulas do gênero. A violência praticada por Eli não está situada nem numa dimensão plana, como um ato bom ou mal, nem numa dimensão anestesiante, aquela exibição torrencial de sangue e corpos dilacerados. Ela é simplesmente uma marca de sua existência, uma realidade que não pode ser negada e nem abandonada, do contrário é a sua própria existência que corre riscos. Para Oskar, este aprendizado significa, acima de tudo, uma reação, a liberação da potência imaginária de seu desejo. Fato que provoca um profundo deslocamento, uma espécie de rito de passagem, no menino. Ele abandona sua existência passiva, em constante negação de seu desejo, para uma ativa, que afirma o próprio desejo. Não é gratuito que este processo, além de estar situado no signo da violência, também se aproxime de uma dimensão erótica, da descoberta do corpo alheio, da possibilidade de tocar e sentir este corpo. Nesse sentido, o beijo dos dois personagens representa muito bem esta transição, este rito de passagem em direção à uma vida ativa, pois é um beijo selado pelo sangue de uma das vítimas de Eli, a violência e o erotismo como duas instâncias dessa atividade. Não é difícil perceber o quanto esta aproximação subverte as fórmulas do gênero. O problema é que a subversão de hoje se tornará a fórmula de amanhã, um estúdio de Hollywood já comprou os direitos da obra para refilmá-la. Aí, talvez, tenhamos a (triste-)oportunidade de ver a história de Oskar e Eli muito mais à maneira dos crepúsculos da vida.

3 comentários:

IcaroReverso disse...

vou assistir!

Anônimo disse...

Você leu a entrevista com o diretor onde ele fala umas coisas legais sobre crianças atores? acho que saiu na folha de sp. Enfim, é massa saber que ambas as crianças não eram atores, porque, graças a Deus, em algum lugar do mundo respeitam a infância e não enfiam os moleques que ainda chupam dedo em malditos sets de filmagem e escolinhas de atores mirins, enfim, só pra provar que lugar de criança não é sustentando a família e que diretor bom tira leite de pedra. Enfim, Låt den Rätte Komma In é muito foda. Não só pelo gênero, mas por tudo.

Tripa

Leandro disse...

Icaro,

vale a pena. Acho que ainda está em cartaz.

Pablo,

preciso procurar a entrevista. Como você disse, um bom diretor consegue fazer mágica com os atores, pois a menina é genial. E o filme é realmente muito bom.

Abraços