domingo, 8 de junho de 2008

Noites Brancas de Luchino Visconti


Noites Brancas de Luchino Visconti é um dos meus filmes preferidos. Baseado no livro homônimo de Dostoievsky, conta a história de Mario (Marcello Mastroianni), um jovem funcionário que foi transferido para a pequena cidade de Livorno. Lá, o personagem vive uma vida bastante solitária, afinal não conhece ninguém além da família de seu chefe e da senhoria de sua pensão. Essa rotina, no entanto, é quebrada quando Mario se encontra com Natalia (Maria Schell), uma moça bela e muito triste, que espera apaixonadamente o retorno de um misterioso homem. Mario, é claro, se apaixona pela moça e ambos passam a se encontrar, noite após noite, compartilhando as dores dessa espera agonizante.

O filme, além de contar uma bela história de amor, é importante e interessante pela sua inovação estética. Como se sabe, Luchino Visconti foi um dos cineastas que produziu obras importantes naquilo que convencionalmente foi chamado de “neo-realismo” italiano. Em linhas muito gerais, esses filmes eram marcados pelo esforço em representar, com fidelidade, a degradação da realidade social italiana no pós-guerra. Esse efeito era alcançado por meio de certos procedimentos: filmagens em espaços abertos, sem a construção de cenários; utilização de atores amadores; a temática preferencial era aquela que atentava para os modos de vida das classes operárias...

Com Noites Brancas, Visconti abandona esses procedimentos. A fotografia do filme, sobretudo, rompe com a forma usual, não utilizando nenhuma tomada em espaço aberto. Tudo é feito dentro de um estúdio, no qual foi construída uma Livorno fantasiosa e onírica. A cidade emana um ar decadente e melancólico. Os efeitos de luz deixam as ruas e as construções com um leve ar irreal. O mais interessante é que o aspecto da cidade vai se transformando de acordo com os sentimentos dos personagens. Aquele aspecto sombrio e triste vai dando lugar a uma cidade mais jovem e alegre. As luzes ganham vida e a neve, que começa a cair apenas no final do filme, criam uma nova Livorno. É nesse momento que a dolorosa espera parece suspensa e a felicidade algo possível. Por essa razão, alguém disse que a Livorno viscontiana é uma cidade metafísica, na qual a realidade está misturada com o sonho e com o desejo.

Esse aspecto onírico consegue materializar o espírito dos personagens: almas solitárias que precisam se abraçar com força aos seus próprios sonhos e desejos, aos quais a dolorosa força da realidade é insuportável. É impossível não se comover com as lágrimas de Mastroianni. Lágrimas que trazem todo o peso da realidade, sempre mais forte que qualquer sonho ou desejo...

5 comentários:

aLePh DaViS disse...

Evoé, Leandro!

Também adoro Visconti e esse filme, não bastasse Dostoiévski...
ele ainda me sai com Marcello, meu ator predileto, em esplêndido P&B.

Abreijos textuais
A.D.

COLETIVO LITERÁRIO disse...

E NÓS???

Leandro disse...

Olá Davis, pois é, o filme é ótimo. Descobri também que o Visconti adaptou O Estrangeiro para o cinema, também com o Marcello. Imagino que deva ser bastante interessante, espero encontrar qualquer dia.

Leandro disse...

Coletivo Literário, tenha calma... quando tiver algo para dizer, direi...

josaphat disse...

Assisti ao filme, maravilhoso. Vou citar a ambos em meu blog. Abraço.